As mulheres que habitam em mim

Me empolga a ideia de deitar no computador as inquietações da vida. Apesar disso reluto em escrever. O título surge na confidencia com a amiga, a primeira frase durante o banho, o desenrolar e o resto na hora de dormir. E já não posso dormir. Enquanto cuido em fechar os olhos, as palavras prosseguem em busca uma da outra. Substantivo com adjetivo, frase com frase, parágrafo com parágrafo. Aqui cabe um parêntese. Não esperem nada original. Nessas poucas linhas já recorri a Machado uma ou outra vez e você, leitora sensível, se pergunta onde, quando e por quê. É que no meu teclado tudo é remiscência. O que li e vivi faz parte de mim e transborda. Faz parte de mim e transcende. Faz parte de mim e me forma. E me transforma. E me muda. E, neste instante, me impulsa a escrever.

Não sou a mesma de há 7 meses, e talvez nem esteja aqui em 7 dias. A vida pode ser tão efêmera que chega a não valer a pena ser uma mulher só. Que monótono seria não ser metamorfose. Eu gosto de descobrir-me borboleta. Olhar pra trás e enxergar o ovo, a lagarta e a pupa. Como é bom rir dos erros cometidos; surpreender-se com as lágrimas só agora vistas como desnecessárias; perceber a força daquela decisão tomada. Aaaahh, e eu que pensava que aquela decisão era tão insignificante. É que eu ainda não compreendia que algo tão pequeno como o vôo de uma borboleta podia causar um tufão do outro lado do mundo.

Mas calma, não vou filosofar sobre a teoria do caus. Os filmes e os livros já o fizeram suficiente e não quero ser cansativa. A questão é que, tal como Clarice, eu antes era uma mulher que sabia distinguir as coisas quando as via, mas que agora cometi o erro grave de pensar. Pensar é uma carga pesada demais e desde que rasgamos os sutiãs há algumas décadas dissemos SIM às consequências desse peso. Eu sei. Eu não fui às ruas à época. Meu um quarto de século bem vivido não me permitiu participar desse momento histórico tão singular. É que não lembro só do vivido. Sou um pouquinho da minha mãe; sou um pouquinho da minha cidade; um pouquinho do meu país e um pouquinho de globalização. Sou um “o quê?”; um quase tudo; e, ao mesmo tempo, nada. Sou mutante.

E na minha mutação constante uma das mulheres que me tornei foi uma mulher incomodada. – Incomodada? – Sim, incomodada. Enquanto ser pensante e crítico, incomodo-me com as injustiças do mundo, com os julgamentos de certas pessoas, com a inveja alheia, com aproveitadores baratos. Não. Não sou mal amada; nem amargurada. Sou simplesmente crítica. E talvez essa palavra soe melhor que incomodada. Tal como Drummond disse, meus ombros suportam o mundo; não o cura. Mas só porque não posso mudar o mundo, não quer dizer que devo deixa-lo me guiar, me padronizar, me enquadrar. Já sou borboleta. E as fases pelas quais passei já me permitem andar com minhas próprias pernas, me impor, e também fazer só o que eu quero.

A mulher pode ser uma mãe exemplar, uma esposa amorosa, uma dona de casa perfeita. Pode também não querer ter filhos, experimentar um relacionamento aberto, e deixar o lixo de uma semana acumular na sua casa. Pode fazer só o papai e mamãe ou o kama sutra; Pode dizer elogios ou palavras obscenas. Pode ser santinha ou depravada. Pode ser isso tudo ou não ser nada. Rasgamos os sutiãs para sermos o que quisermos ser e não para sermos o que os machistas ou as feministas, os pais ou os namorados esperam que sejamos. Posso experimentar algo novo e gostar ou posso experimentar e odiar. Posso querer ser totalmente liberal ou um pouco tradicional. Posso estar querendo um caso de fim de semana ou um amor para a vida toda. Posso ser a mulher que eu quiser; e no momento estou mais para a que elege essas segundas opções. Várias mulheres habitam em mim – as alheias e as que eu me permiti ser em cada fase da vida. Sou todo e sou parte. Sou mulher. Sou única.

Prazer.

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Um comentário sobre “As mulheres que habitam em mim

  1. “Eu sou como a borboleta
    Tudo o que eu quero é liberdade!”
    Já ouviu essa música do Benito de Paula, Lu? Sejamos borboleta e festejemos a liberdade de nos transformarmos sempre que nos for interessante! Parabéns pelo texto. Beijo.

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